
A política faz parte da organização da sociedade e influencia decisões que afetam diretamente a vida das pessoas. Educação, saúde, segurança, liberdade religiosa, assistência social e diversas outras áreas são alcançadas por decisões tomadas pelas autoridades públicas. Diante dessa realidade, surge uma pergunta importante: como os adventistas do sétimo dia devem se relacionar com a política?
A Igreja Adventista do Sétimo Dia mantém uma posição institucional apartidária, ao mesmo tempo em que reconhece a responsabilidade de seus membros como cidadãos. Essa orientação foi reafirmada em documento atualizado e aprovado pela Divisão Sul-Americana em maio de 2026.
Igreja e Estado: funções diferentes
Um dos princípios fundamentais apresentados pela Igreja é a distinção entre as funções da Igreja e do Estado. A denominação entende que ambas possuem responsabilidades próprias e que a liberdade de consciência deve ser preservada.
Por essa razão, a Igreja Adventista não possui partido político, não se filia a partidos e não utiliza seus recursos institucionais para atividades político-partidárias. A mesma postura deve orientar suas instituições, pastores e servidores.
Essa posição está relacionada também à compreensão adventista de que o evangelho deve ser anunciado a todas as pessoas, independentemente de suas preferências políticas.
Apartidarismo não significa indiferença
Ser apartidário não significa ignorar os problemas da sociedade ou deixar de cumprir responsabilidades civis.
A orientação oficial da Igreja afirma que os membros devem levar a sério seus deveres como cidadãos. A participação no processo democrático e o exercício do voto fazem parte dessa responsabilidade, respeitando a consciência individual. A Igreja Geral também orienta os adventistas a participarem do processo de votação quando isso for possível de acordo com sua consciência.
Assim, existe uma distinção importante: a Igreja, como instituição, não assume partidos ou candidatos; seus membros, como cidadãos, possuem responsabilidades individuais perante a sociedade.
O voto é uma decisão individual
Nas eleições, cada cidadão precisa avaliar as informações disponíveis e tomar sua própria decisão.
Para o adventista, essa escolha deve estar em harmonia com sua consciência e seus princípios cristãos. A Igreja não estabelece um candidato ou partido que deva ser escolhido pelos seus membros.
A Bíblia apresenta princípios relacionados à responsabilidade diante das autoridades e à vida em sociedade. Entre eles está a orientação de Jesus: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Marcos 12:17).
Ao mesmo tempo, a perspectiva cristã estabelece que a lealdade a Deus permanece acima de qualquer autoridade humana. Atos 5:29 apresenta o princípio: “Mais importa obedecer a Deus do que aos homens”.
Espaço da igreja não deve ser utilizado para campanhas
A postura apartidária também se aplica aos espaços e canais oficiais da Igreja.
De acordo com o documento atualizado, templos, instituições, sedes administrativas e outros espaços da organização não devem ser utilizados para promoção eleitoral ou partidária. A Igreja também não autoriza o uso de seus canais institucionais para favorecer candidatos ou partidos.
Essa orientação procura preservar o ambiente da igreja como espaço de adoração, comunhão, ensino bíblico e missão, sem transformá-lo em ambiente de disputa político-partidária.
E quando um adventista decide entrar para a política?
A participação individual de membros na vida pública é possível.
A Igreja informa que um adventista pode se candidatar a um cargo público. Entretanto, existem orientações específicas para aqueles que ocupam determinadas funções na organização durante o período eleitoral. Membros que exercem funções de liderança local precisam observar as orientações aplicáveis, enquanto pastores, obreiros e funcionários da organização possuem regras específicas de afastamento de suas atividades denominacionais durante uma campanha.
Isso demonstra novamente a diferença entre a participação política de um cidadão e a posição institucional da Igreja.
Liberdade religiosa como princípio
Outro aspecto importante da relação entre adventistas e política é a defesa da liberdade religiosa.
Historicamente, a Igreja Adventista tem atuado na defesa da liberdade de consciência e do direito de cada pessoa exercer sua fé. Essa atuação não significa defender uma religião específica por meio do poder político, mas buscar condições para que pessoas de diferentes crenças — ou sem religião — tenham seus direitos respeitados.
A Igreja Geral destaca que os adventistas devem promover a liberdade religiosa para todos e evitar utilizar sua influência política para favorecer a própria fé ou restringir a fé de outras pessoas.
Política não deve ocupar o lugar da fé
Em períodos eleitorais, discussões políticas podem alcançar famílias, amizades e até comunidades religiosas. Por isso, a Igreja chama atenção para a necessidade de prudência.
A orientação adventista é que diferenças políticas não devem se transformar em motivo para romper relacionamentos ou comprometer a comunhão cristã. Um artigo publicado pela própria Igreja em 2026 destacou justamente os riscos de permitir que preferências políticas ocupem espaço maior do que a fé, a missão e o testemunho cristão.
A identidade cristã, portanto, não deve ser confundida com uma identidade partidária.
Servir à sociedade
A relação dos adventistas com a sociedade vai além das eleições.
A Igreja entende que sua missão inclui servir às comunidades onde está presente. Projetos sociais, ações de saúde, assistência aos necessitados, educação, defesa da liberdade religiosa e iniciativas de solidariedade são algumas das formas pelas quais os adventistas procuram contribuir para o bem-estar da sociedade.
O documento oficial de 2026 reforça que a missão da Igreja inclui ações de solidariedade capazes de expressar amor ao próximo e aliviar o sofrimento humano.
Uma cidadania com duas dimensões
A perspectiva adventista pode ser resumida pela ideia de que o cristão possui responsabilidades tanto na sociedade em que vive quanto diante de Deus.
Como cidadão, o adventista é chamado a respeitar as autoridades, cumprir seus deveres civis e contribuir para o bem da comunidade. Como cristão, é chamado a manter sua consciência fundamentada nos princípios bíblicos e sua esperança voltada para o Reino de Deus.
Por isso, a Igreja não apresenta um partido ou candidato como representante da fé adventista. Em vez disso, incentiva seus membros a exercerem a cidadania com responsabilidade, consciência e respeito às diferenças.
Em um cenário marcado pela polarização, essa postura procura preservar aquilo que é central para a missão adventista: anunciar o evangelho, servir às pessoas, defender a liberdade de consciência e manter viva a esperança na volta de Jesus.
A política pode influenciar a sociedade, mas, para o cristão adventista, ela não deve ocupar o lugar que pertence à fé.
“Vem, Senhor Jesus!” (Apocalipse 22:20).